Bebés que mamam de três em três horas. Bebés que dormem 18 horas por dia. Bebés que param de chorar com a chucha. Bebés que adormecem sozinhos na cama deles. Bebés que dormem a noite inteira com um mês. Bebés que só comem e dormem. A sério, alguém conhece bebés assim? Alguém já viu algum? Eu acho que são lenda.
Os meus bebés choram, mamam e só estão bem no colo. Ah, e sujam a fralda e o body e as costas e as calças e as meias e a minha roupa. Não há fraldas hi-tech, 3D ou ultra-não-sei-quê que resistam. É cocó por todo o lado e várias vezes ao dia.
E dormir? Para mim, é o maior mito de todos os tempos. É que nem consigo imaginar um bebé que acorde só para comer. Os meus preferem ficar a olhar para tudo e a exigir atenção de toda a gente.
Só me ocorre que seja a evolução da espécie. Não dizem que antigamente os bebés só abriam os olhos aos seis meses? Um dia talvez os bebés tenham tido fome apenas a horas certas e passassem o resto do tempo a dormir sossegados. Depois, evoluíram, ganharam vontade própria e perderam o relógio na barriga. Trocaram os soporíferos pelas teínas. Aprenderam a lutar pelo original (mama) em vez de se contentarem com a cópia (chucha). Ou então foram só os meus que evoluíram. Demais.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Dois meses a dobrar
É costume dizer-se às recém-mães para dormirem quando o bebé dormir, porque só assim conseguirão descansar. Um conselho muito útil... para quem só tem um filho.
Sempre que deito o Vicente, a Catarina voa para cima de mim como quem vê um oásis no meio do deserto.
A primeira vez que aconteceu tinha acabado de pousar o Vicente na cama e estava literalmente a atirar-me para o chão ao mesmo tempo que desabafava um grande ufa!! Ainda não tinha chegado ao tapete quando vejo a Catarina, de braços abertos, sorriso de orelha a orelha, a aterrar no meu colo exausto.
Abracei-a de volta e pus as palavras na boca dela: "pensavas que só tinhas um filho, era?" Ela percebeu a graça e agora, sempre que me vê de mãos vazias, salta para cima de mim e repete: "pensavas que só tinhas um filho, era?"
Foram assim estes dois meses. A alternar entre pesos de quatro e de vinte quilos. A dividir-me em banhos e refeições e a multiplicar-me em beijos e abraços. E, no final, as contas são estas: descanso - 0; coração cheio - 100000000.
Sempre que deito o Vicente, a Catarina voa para cima de mim como quem vê um oásis no meio do deserto.
A primeira vez que aconteceu tinha acabado de pousar o Vicente na cama e estava literalmente a atirar-me para o chão ao mesmo tempo que desabafava um grande ufa!! Ainda não tinha chegado ao tapete quando vejo a Catarina, de braços abertos, sorriso de orelha a orelha, a aterrar no meu colo exausto.
Abracei-a de volta e pus as palavras na boca dela: "pensavas que só tinhas um filho, era?" Ela percebeu a graça e agora, sempre que me vê de mãos vazias, salta para cima de mim e repete: "pensavas que só tinhas um filho, era?"
Foram assim estes dois meses. A alternar entre pesos de quatro e de vinte quilos. A dividir-me em banhos e refeições e a multiplicar-me em beijos e abraços. E, no final, as contas são estas: descanso - 0; coração cheio - 100000000.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
O segredo de um parto
O "problema" de ter um parto em casa é ter de passar a vida a explicar o porquê e o como.
Se eu dissesse que tinha estado dois dias no hospital cheia de dores, sem me poder mexer, com três doses de epidural, que me tinham rebentado a bolsa, carregado na barriga, que me tinham cortado toda e que tinha passado (no mínimo) uma semana sem me conseguir sentar, ninguém estranharia, ninguém faria perguntas ou comentários.
Talvez encolhessem os ombros e suspirassem: «O que interessa é que o bebé está bem». E a mãe? Estaria bem?
No meu caso, posso dizer que bebé e mãe estão maravilhosos. E não foi preciso ninguém me tocar, ninguém me espetar, ninguém me cortar, ninguém me dar ordens.
Mas cada vez que digo que o Vicente nasceu em casa é o drama. No registo, na inscrição no Centro de Saúde, nas vacinas, as perguntas e o espanto sucedem-se. Ficam a olhar para mim, a avaliar-me: «Será freak ou tola?»
Entre quem me conhece, amigos e familiares, uns chamam-me corajosa, outros inconsciente. Não acho que seja nem uma coisa, nem outra. Felizmente, tive a possibilidade de seguir o meu instinto e fiz tudo o que senti que devia fazer. Sem medo. E é este o segredo para um bom parto, seja ele em casa ou no hospital.
sábado, 21 de julho de 2012
Uma semana
A subida do leite já passou, as "dores tortas" já passaram, os lóquios estão quase a passar.
O Vicente já engordou 300 gramas (sim, ao contrário do que costuma acontecer aumentou o peso em vez de perder), já lhe caiu o umbigo, já gastou um pacote de fraldas dos grandes.
Juntos, já passámos noites a acordar de hora a hora, noites quase inteiras a dormir e noites em que o sono parecia ligado a um relógio suíço.
Apesar de tantas mudanças e de tantos ritmos novos, parece impossível ter havido um dia em que o Vicente não existiu. É como se ele sempre tivesse estado aqui.
Só passou uma semana e já não consigo imaginar a vida de outra maneira.
domingo, 15 de julho de 2012
E é isto a felicidade
11 de Julho de 2012. O Vicente nasceu hoje, às 9 horas, em casa.
Foi provavelmente o parto mais rápido de sempre. Entre as 8h30 e as 9 horas, entreguei-me à maravilhosa tarefa de trazer um bebé ao mundo.
Deixei-me levar pelo corpo, confiei em quem tinha ao meu lado, acordei vizinhos, não tive medo uma única vez.
Assim que o Vicente chegou aos meus braços, a mana e o pai puderam também tocá-lo e cheirá-lo. E desde esse momento estamos juntos, em sintonia, cheios de amor, num estado de pura felicidade.
Catarina, 5 anos, e Vicente, 10 horas
sexta-feira, 6 de julho de 2012
O que se espera quando se vê um parto no cinema

Enquanto espero pelo Vicente, fui ver o filme «O que se espera enquanto se está à espera». Nada de novo. Leve, bem disposto, próprio para quem está a passar pela gravidez. Mas, claro, os partos são mostrados como se fossem anedotas.
Eu sei que as comédias românticas se chamam comédias por algum motivo. Só que, no parto, as piadas são sempre as mesmas. É como aquela cena em que, no primeiro encontro, um dos apaixonados fica com molho no canto da boca e o outro passa-lhe o dedo nos lábios suavemente para limpar. Não se aguenta.
Eu sugeria filmarem o parto como se filma um beijo apaixonado ou mesmo uma cena de sexo. Afinal, vai tudo dar ao mesmo. Pouca luz, câmara lenta, uma música bonita. Se é comédia romântica, de vez em quando, podiam puxar pelo romantismo em vez de puxarem pelo riso fácil.
Não acho que seja preciso mostrar o bebé a coroar, nem fazer grandes planos da vagina a esticar. Assim como acho que não é preciso mostrar línguas durante um beijo ou fazer grandes planos de órgãos genitais numa cena de sexo. Mas um parto pode ser muito romântico, garanto.
Nas condições ideais - pouca luz (ou seja, com privacidade), câmara lenta (ou seja, sem pressa), uma música bonita (em vez do som das conversas das enfermeiras) - o nascimento de um bebé tem tudo para ser um momento sublime. Desde a primeira contração ao primeiro choro. Em caso de dúvida, basta ver esta não comédia romântica: Le Premier Cri
sábado, 30 de junho de 2012
38 semanas!
Yehhhhh! Objetivo cumprido! Cheguei às 38 semanas! Agora é mesmo esperar. E queimar os últimos cartuchos.
Ainda não me fartei de estar grávida, embora já me custe apertar as sandálias ou arranjar posição para dormir. Os mimos, as prioridades nas filas e os lugares de estacionamento à porta continuam a saber bem.
Há uma semana, a médica deu-me ordem para andar. E foi isso que fiz.
Pedi ao Vicente para - já agora, depois de três semanas sem me poder mexer - me deixar: estar um dia na praia até ao pôr-do-sol, almoçar com as amigas, passar uma tarde no shopping, ver Portugal despedir-se do Euro-2012, ter um jantar romântico e ir à festa de final de ano da Catarina. Está tudo riscado da lista.
Por isso, Vicente, meu querido e adorado filho, só faltas tu para a alegria ser completa.
Ainda não me fartei de estar grávida, embora já me custe apertar as sandálias ou arranjar posição para dormir. Os mimos, as prioridades nas filas e os lugares de estacionamento à porta continuam a saber bem.
Há uma semana, a médica deu-me ordem para andar. E foi isso que fiz.
Pedi ao Vicente para - já agora, depois de três semanas sem me poder mexer - me deixar: estar um dia na praia até ao pôr-do-sol, almoçar com as amigas, passar uma tarde no shopping, ver Portugal despedir-se do Euro-2012, ter um jantar romântico e ir à festa de final de ano da Catarina. Está tudo riscado da lista.
Por isso, Vicente, meu querido e adorado filho, só faltas tu para a alegria ser completa.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Contagem decrescente
Já só consigo pensar no parto. Tenho adiado fazer a mala para a maternidade, como se isso aproximasse a hora. Mas hoje decidi que iria fazê-la. Tenho babygrows minúsculos, meias que só cabem em dedos, gorros que servem a bonecos, tudo composto em cima da cómoda. É uma imagem tão inspiradora como assustadora.
Nos últimos dias, ando ainda mais atenta aos sinais do corpo. E, quando acordo, não consigo deixar de pensar: e se for hoje? Imagino o parto, mesmo sabendo que nunca é como imaginamos (felizmente, muitas vezes, é bem melhor do que alguma vez poderíamos pensar). A primeira contração, o primeiro grito e, depois, entrar naquela dança, a mente dormente, o mundo a desaparecer, um bebé lindo e frágil no meu colo, ligado a mim para sempre. O amor.
E, a partir desse segundo, nada mais será igual. A feminilidade e a maternidade vão lutar entre elas, até perceberem que as duas são uma e única coisa. Depois de termos um filho, enquanto mulheres, somos atingidas nos pontos mais sensíveis: dores nas mamas, um período menstrual contínuo e excessivo, falta de tempo para sequer olhar ao espelho. Enquanto mães, mergulhamos num mar de dúvidas e exigências: choros indecifráveis, pilhas de fraldas cheias de cocó e chichi, a visão restrita apenas a meio metro de gente.
Olho, mais uma vez, para a montra de roupa fofinha em cima da cómoda. Pelo sim, pelo não, vou levar também o rímel e o stick anti-olheiras.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
A melhor notícia
Uma vez escrevi um texto sobre «como anunciar a gravidez» e comecei por dizer que era a melhor notícia que se podia dar a alguém. Cada vez mais tenho a certeza disso.
Sempre que sei que vem um bebé a caminho entra em mim uma alegria pura. Mesmo que eu não conheça pessoalmente os futuros pais, sinto uma espécie de leveza geral naquele momento em que oiço alguém dizer: «Estou grávida!» E vejo a mesma sensação na cara das outras pessoas quando ouvem as mesmas palavras. Vejo as sobrancelhas a desenrolarem-se, os lábios a esticarem, as rugas a desaparecerem. Leveza.
Hoje tive a sorte de sentir essa alegria duas vezes. A primeira, no zapping habitual, quando vi a apresentadora da tarde anunciar a gravidez em direto. Não a conheço para além da televisão, mas dei por mim a rir sozinha, quase comovida, enquanto a plateia e a equipa do programa batiam palmas também a sorrir. Depois, uma amiga que não via há muito contou-me que estava à espera de um Tomás. Tive logo de partilhar a novidade com quem estava mais perto. Porque receber este tipo de notícia também tem essa particularidade: dá vontade de contar a toda a gente e espalhar a alegria pelo mundo.
Calculo que ganhar o Euromilhões ou ser promovido no emprego também sejam boas notícias de dar e de receber. Mas não é a mesma coisa.
Saber que, em breve, um novo bebé chegará a este mundo enche qualquer um de esperança e de espanto. Não sei bem porquê. Acho que é porque percebemos, afinal, que nem tudo é efémero. Que continuamos por cá. Como se, por momentos, a vida fosse um círculo perfeito, cheio, a girar no sentido certo, à velocidade certa.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Um bebé a caminho e outro a deixar de o ser
Às 35 semanas de gravidez, continuo de descanso forçado. Segundo a ecografia que fiz na terça-feira, o Vicente já está com a cabeça bem encaixada e a fazer pressão na porta de saída. Disse-lhe que não vale a pena ter pressa, que está muito melhor no quentinho, que o tempo cá fora anda esquisito. Mas acho que lhe cheira a festa. Pela janela, vimos a Volvo Race. Pela televisão, temos acompanhado o Rock in Rio, o Euro-2012, os Santos Populares. E vêm aí os festivais de verão e os Jogos Olímpicos. Nunca ouviu a palavra começada por c... É natural que pense que isto cá fora seja uma ramboia pegada.
A Catarina é que não está a achar graça nenhuma a ter a mãe a meio gás. Nas duas últimas semanas, a sua frase preferida tem sido «assim não sou mais tua amiga!». Ou porque quer lanchar chocolates e bolachas ou porque eu não a deixo andar vestida com as minhas calças ou porque lhe digo para arrumar o quarto.
No outro dia, estava já cheia de sono e cansada e queria à força que fosse eu a dar-lhe banho - que é a coisa que mais me custa a fazer. Com o queixo a tremelicar, os olhos molhados, abraçada a mim, nem se lembrou da frase do costume. E, eu, numa tentativa de explicar o que não tem explicação, disse-lhe que quando ela estava na minha barriga, também tive de descansar muito e não podia dar banho, nem brincar com a Lua (a nossa querida gata que morreu este ano). A desolação foi ainda maior: «Mas isso é muito diferente, eu não sou um animal!», respondeu-me.
Ainda bem que vem aí um bebé, porque está visto que cá em casa já não há nenhum.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
A gravidez é contagiosa?
Encontrámo-nos as três, por acaso, no parque de estacionamento de um centro comercial, no final de uma tarde de inverno. Os miúdos - cada uma tem um filho - excitadíssimos por estarem juntos, a correrem sem sentido pelo meio dos carros parados e nós a tentar ter uma conversa do princípio ao fim enquanto os mandávamos estar sossegados.
Eu feliz da vida: «Estou grávida!»
A segunda ansiosa: «Não me digas nada, que estou com uma semana de atraso!»
A terceira assustada: «Vou-me embora que parece que isso é contagioso!»
Uma semana depois uma confirmação. Um mês depois outra.
Sim, a gravidez, às vezes, parece contagiosa. E ainda bem. Porque, melhor do que estar grávida, só ter uma amiga grávida ao mesmo tempo. Ter companhia para passear pelas lojas de puericultura. Ter com quem comparar resultados de análises e ecografias. Ter com quem trocar olhares embevecidos sempre que passa um bebé. Ter quem compreenda se os nossos suspiros são de cansaço, de ansiedade ou de alegria. Ter com quem falar de tudo, sem pudores, do bom e do mau de ter um bebé a crescer na barriga.
Há umas semanas, estávamos as três barrigudas a relembrar o encontro do parque de estacionamento e a prever como seriam os finais de tarde daqui a um ano - nós as três e seis crianças a exigir-nos atenção! - quando outra amiga decide ir embora, justificando: «Vou-me embora, que isto é contagioso!» Tive vontade de responder: «Daqui a um mês falamos....»
terça-feira, 5 de junho de 2012
O tempo da gravidez
A roupa está lavada e dobrada. A cama está pintada e montada. As fraldas estão compradas. O coração começa a apertar.
Passaram a correr estes meses. Parece que foi há tão pouco tempo que fiz o teste, dividida entre o «não pode ser» e o «deus queira que seja». Agora, a indecisão está de volta. Ora penso: «Tomara que estas semanas passem rápido para ter o meu bebé nos braços». Ora desejo: «Tomara que passem devagar, que ainda não estou preparada para o que aí vem».
Para já, esta semana de clausura (uma já foi! ufa!) tem-me sabido muito bem. Entre maratonas de Anatomias de Grey, Donas de Casa Desesperadas (dão três episódios de cada por dia!) e Lost (dão dois por dia), tenho dormido sestas e aproveitado para gozar esta dança contínua que o Vicente me oferece todos os dias. Consigo sentir-lhe perfeitamente as costas a espreguiçarem-se, do meu lado direito, e os pés a pedalarem, do lado esquerdo. É quase como se já soubesse de cor os seus contornos. Se estou de barriga para cima, mexe-se e remexe-se, parece que a reclamar por ficar mais apertado. Às vezes, tem soluços e, durante uns minutos, estamos mesmo em contacto: encosto a minha mão às suas costas, a amparar cada pulo do seu corpo, até que o sinto sossegar. E o melhor é quando, de repente, noto que está muito calminho e ele responde-me imediatamente com um pontapé.
É um privilégio poder viver a gravidez assim. Vivê-la plenamente. Estar disponível para ir conhecendo o bebé mesmo antes de o conhecer. Ter tempo para sentir o coração apertar e crescer de amor. Sem pressas, nem correrias.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Sou uma incubadora, parte II
Eu já calculava. Aconteceu o mesmo com a Catarina. E, por mais que se diga que não há duas gravidezes iguais, esta está a ser muito parecida com a primeira.
Segunda-feira fui à médica e vim de lá com a receita de repouso absoluto. O Vicente está com pressa, mas precisa de ficar no quentinho mais umas semanas. Por isso, o meu papel agora é ser uma incubadora.
Quando foi com a Catarina, adorei este tempo: descansei muito, consegui pôr as séries, os filmes e a leitura em dia, preparei-me mentalmente para o bom caos que aí vinha. Mas agora não estou sozinha. Sou uma incubadora com atrelado. A Catarina estranhou logo na segunda-feira: «Porque é que tu é que me vens buscar?», perguntou quando viu o pai na escola. Em casa, explicámos-lhe que a mãe tinha que descansar muito para o Vicente nascer grande e forte e que quando ela estava na minha barriga tinha acontecido o mesmo. Disse-lhe também que, estando eu quietinha no sofá, teríamos muito mais tempo para brincar juntas (brincadeiras sossegadas, claro), já que não podia andar a arrumar a casa ou a tratar de outros assuntos.
Não ficou muito convencida. Não vou buscá-la à escola. Não vou passear com ela. Não lhe dou banho. Acho que, pela primeira vez, percebeu que isto de ir ter um mano pode atrapalhar-lhe um pouco a vida. E eu percebi, pela primeira vez, sem querer ser muito dramática, que ter mais do que um filho será uma eterna «escolha de Sofia».
quinta-feira, 24 de maio de 2012
5 anos
Faz hoje cinco anos que a minha vida mudou. Há cinco anos
descobri o amor incondicional. Eu pensava que sabia o que era. Afinal, eu amava
algumas pessoas e sabia que faria muita coisa por elas. Mas este amor, este amor
que cresce todos os dias, que me faz acordar bem-disposta mesmo quando o mundo
parece prestes a acabar, que me faz levantar da cama mesmo quando o corpo
parece pesar cem quilos, que me faz sorrir mesmo quando tenho vontade de
chorar, este amor é diferente de todos os outros.
Faz hoje cinco anos que a minha vida mudou. Muitas coisas
deixaram de ter importância, outras ganharam um valor que nunca tinham tido. Não
digo que percebi logo a imensidão do sentimento que vinha aí. Foi ao longo do
tempo que confirmei que todos os clichés sobre o amor de mãe são a mais pura
das verdades, que não há amor maior do que este.
Há cinco anos vi a minha filha pela primeira vez. Esta
manhã, como todas as outras nos últimos tempos, ouvi os pezinhos dela a pousarem no chão, a
correrem pela casa na minha direção. «Bom dia mamã!» E se eu pudesse tê-la
desenhado, tê-la programado, ter escolhido cada pormenor seu, não seria um amor
tão maravilhoso.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Todos os nomes
Escolhemos o nome Vicente há
muitos anos. Ainda nem pensávamos em ter filhos. Inspirados por uma viagem
romântica, numa daquelas conversas que os jovens apaixonados têm sobre o futuro.
Quando fiquei grávida pela primeira
vez, lembrámo-nos do Vicente, mas calhou-nos uma menina e foi noutra
escapadinha romântica que descobrimos que Catarina seria o nome perfeito.
Agora, que já somos três lá em
casa, a conversa dos nomes não teve direito a viagem romântica, mas deu muito
pano para mangas. Seguindo o conselho de livros, psicólogos, pediatras e gente
em geral, perguntámos à Catarina que nome gostaria que o irmão tivesse. Mas
ela, além de mudar de opinião dez vezes ao dia, só escolhia nomes que não nos
diziam nada.
Decidimos então recuperar o
Vicente. A Catarina gostou. Ficámos todos felizes.
Eis que, não sei bem porquê,
todas as pessoas – amigos, familiares e desconhecidos que acham graça a uma
grávida com uma criança pela mão e, por isso, desatam a fazer perguntas – se
lembram de perguntar à Catarina: «Então, que nome é que escolheste para o
mano?» ou «Como se vai chamar o mano? Foste tu que escolheste?»
Ela, que é sempre uma miúda simpática
e expedita, até fica meio atrapalhada e lá vai dizendo que o mano se chama
Vicente, mas não foi ela que escolheu. E até eu fico sem saber o que dizer, a
pensar que, se calhar, sou a pior mãe do mundo por não ter deixado a irmã mais
velha escolher o nome do irmão mais novo.
Mas há alguma regra universal que
obrigue que assim seja? Afinal, quem é que manda lá em casa?
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Conta-me como nasci
Eu só tinha três anos, mas juro que me lembro. Morávamos na casa da minha avó. Devíamos ter acabado de jantar há pouco tempo. A minha mãe, com uma barriga gigante, a calçar umas botas castanhas até ao joelho e eu a pensar que raio de ginástica era aquela, porque não calçaria ela algo mais fácil estando no estado em que estava. O meu irmão nasceu às 23h55. Contam-me que, no dia seguinte, quando fui vê-lo à maternidade, fiquei surpreendida com a sua fealdade, mas isso já não me lembro.
Passados dez anos, deviam ser oito da manhã, a minha mãe, agarrada à barriga, acorda-me, decidida como só ela: «Levanta-te, que eu tenho de ir para a maternidade e quero deixar os teus lençóis a lavar...» Entre o espanto e o mau-humor, saio da cama, tomo o pequeno-almoço, faço mais qualquer coisa e quando volto a deitar-me, desta vez só sobre o edredão, toca o telefone. Era o meu pai: o meu irmão já tinha nascido. Olho para o relógio: passava pouco das nove da manhã.
Há ainda o relato do meu nascimento – a filha mais velha – relembrado todos os anos com entusiasmo: a minha mãe à espera que a Cornélia acabasse e que fechasse a emissão televisiva para ir para o hospital. Chegou lá por volta da uma da manhã. Nasci às 4h40.
Estas são as histórias de partos que me acompanharam ao longo da vida. A minha mãe sempre com uma tranquilidade inacreditável, sem pressas, sem dores, sem preocupações e a bater recordes de tempo na corrida sair-de-casa-nascimento-do-bebé.
Quando chegou a minha vez, não foi muito diferente. Tive o primeiro sinal às nove da manhã, fui para a clínica calmamente, senti a primeira contração ao meio dia e a Catarina nasceu às 14h07, num momento mais que perfeito.
Agora, peço igualmente que a genética continue a funcionar, que a tranquilidade não me abandone, que as forças não se acabem, que o tempo corra a meu favor e que o Vicente nasça saudável e feliz no meio de uma bolha de amor.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Catarina na ecografia
A Catarina pediu-me para ir comigo à ecografia do terceiro
trimestre.
Tem ouvido falar em ir ao médico, ir às análises e à eco e
tenho lhe explicado sempre tudo (dentro do que ela percebe, claro), mas nunca
sugeri que ela fosse. Até porque no Hospital Francisco Xavier, onde fiz a
primeira eco, existe um papel afixado a informar que crianças com menos de 12
anos não podem entrar. Na altura, pensei que até fazia sentido: os hospitais
não são sítios para crianças saudáveis, aquele aparato todo pode provocar-lhes
alguma confusão e se (lagarto, lagarto, lagarto) há alguma má notícia como
falar disso com a criança ali?
Mas também acho que faz sentido deixá-la fazer parte deste
momento tão importante e bom da vida da família. Por isso, hoje, noutra
clínica, ecografia do terceiro trimestre, lá fomos nós.
Expliquei-lhe tudo direitinho como iria acontecer: que eu
iria estar deitada, que pouco se veria do bebé, que iria ouvir o coração, que
tinha que estar sossegada. E ela portou-se lindamente, sempre de mão dada
comigo, atenta, curiosa, sorridente.
A ecografia mostrou que estava tudo bem (iupi! iupi! iupi!)
O Vicente já está na posição certa para nascer, a crescer bem, a mexer-se bem,
em grande forma.
No final, perguntei à Catarina se tinha gostado, ao que ela
me respondeu com um entusiasta «sim!!» Depois, perguntei-lhe o que tinha gostado
mais. E ela, sem hesitar um segundo: «Do creme que o senhor te pôs na barriga!!»
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Do Olimpo, com amor
Adoro estar grávida.
Gosto das mudanças no meu corpo, que me fazem mais bonita e
voluptuosa.
Gosto dos altos e baixos das hormonas, de pular de alegria e
chorar desalmadamente, de, mesmo quando estou triste, encontrar sempre motivos
para sorrir.
Gosto de sentir o poder de criar vida, de ter um bebé a
dançar dentro de mim, a depender só de mim.
Gosto dos mimos de toda a gente, de me darem o lugar, de me
oferecerem a melhor parte do bolo, de me perguntarem se estou bem e esperarem
pela resposta, das festas, beijinhos e elogios constantes.
Gosto do olhar de esperança com que todas as pessoas, mesmo
as que não conheço, olham para mim. Como se eu transportasse deus, como se eu
fosse uma deusa.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Filha és, mãe serás
Hoje foi Dia da Mãe na escola da minha filha. Teatro, declamação de poemas em inglês, presente, lanche com bolos feitos por ela. Tudo a que as mães têm direito. Uma lindeza.
Ela anda há semanas numa excitação, entre o querer muito contar-me o que iria fazer e a obrigação de guardar segredo. Aos poucos, lá me foi desvendando quase tudo o que tinha planeado para me surpreender. Assim como faz questão de contar tudo o que se passa na escola, desde o que comeu ao que as amigas disseram.
Dizem-me que é aproveitar agora, que, depois, eles deixam de querer contar tudo, deixam de querer responder a perguntas, deixam até de querer falar com os pais.
Lembro-me que também eu fui deixando de falar com a minha mãe. Primeiro, porque as amigas eram mais importantes. Depois, porque queria poupá-la às minhas preocupações e problemas. Agora, noto que, cada vez mais, tenho vontade de partilhar tudo o que se passa comigo com a minha mãe. Chego ao final do dia e, tal como a Catarina me faz, despejo o que me vai na alma e mal a deixo falar. E ela ouve-me, com toda a atenção e amor do mundo. E é tão bom. É o verdadeiro círculo da vida.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Sonhar com gatos
Hoje sonhei que o meu filho já tinha nascido e era… um gato!
A sério, um gato lindo e fofinho e eu não estava nada preocupada. Mesmo quando
ele esticava as patinhas para me arranhar na brincadeira. Mostrava-o à Catarina
e as duas estávamos deliciadas.
Depois, achei que era um pouco estranho ter um filho gato e
lembrei-me que talvez estivesse a sonhar. Então tentei acordar. Levantei-me da
cama e dirigi-me ao berço do bebé e lá estavam… dois bebés. Afinal tinha tido
gémeos! E aí, sim, fiquei preocupada.
Freud talvez tivesse uma explicação muito profunda e
reveladora quanto ao significado deste sonho. Mas nós, aqui na redação,
chegámos rapidamente às nossas próprias conclusões: estou a fazer um
trabalho sobre toxoplasmose na gravidez e tenho uma nova colega cujo apelido é
Gatinho.
Parece que, afinal, o meu subconsciente de grávida é muito pragmático.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
E ele move-se
Às vezes, estou muito tranquila a ler um livro ou revista,
apoiando o dito/a cujo/a na barriga e lá sai um saltinho. A minha barriga com
vida própria, as letras a saírem-me da vista, uma sensação maravilhosa, um
sorriso cúmplice com o meu bebé, que, por enquanto, é meu e só meu.
É também como se ele quisesse dizer: «Ei, estou aqui! Não te
esqueças!». Como se me quisesse ir avisando que, em poucas semanas, este
descanso vai acabar e será impossível ler um livro, uma revista, ou fazer outra
coisa qualquer, sem interrupções.
Agora que estou na segunda gravidez não tenho ilusões. Sei
perfeitamente que não vou ter tempo para nada que não tenha a ver com o bebé. E
também sei que a melhor forma de lidar com isso é não querer fazer nada para
além de estar com o meu bebé. Eles crescem tão depressa. O mundo pode esperar.
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